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A História Micronacional é uma disciplina que trata da História de cada micronação e também do mundo micronacional como um todo. Assim como nas macronações, a História micronacional é uma narrativa construída, mas esta concepção é ainda mais evidente no micronacionalismo: em geral, os governos das micronações registram e relatam suas próprias Histórias, seja por meio de textos redigidos em seus websites, pelas edições de jornais e publicações ou pelo registro das listas de discussões e murais de mensagens entre cidadãos.

Várias micronações também constróem para si mesmas as chamadas sagas, ou histórias fictícias anteriores à sua própria invenção, que têm o propósito de enriquecer sua própria cultura, adequar sua existência coerentemente com sua localização geográfica real (macronacional) e criar uma identidade nacional para seus participantes, já que micronações são, por natureza, entidades artificiais.

História do Micronacionalismo

Afirma-se que não é possível contar uma História precisa e factual do micronacionalismo, já que o hobby de inventar e simular países é, potencialmente, tão antigo quanto a própria inteligência humana. A rigor, como pregam Benedict Anderson e outros pensadores ocidentais contemporâneos, as próprias macronações são comunidades imaginadas, o que, de certa forma, permitiria afirmar que toda macronação nasceu como micronação (embora isto seja uma simplificação um tanto vaga e maniqueísta).

Ainda assim, existem certas formas de organização da atividade micronacionalista que podem ter uma genealogia traçada. Em primeiro lugar, os primeiros países simulados foram, durante séculos ou milênios, registrados apenas com os recursos analógicos de escrita, desenho e comunicação: em papel, lápis e tinta. Até muito recentemente, as crianças e adolescentes que inventassem países deveriam reunir-se presencialmente, fisicamente, ou corresponder-se por cartas e bilhetes. Desenhavam seus mapas em papel, fabricavam suas bandeiras com tecido e muitas vezes ocupavam apenas o território cujos limites podiam alcançar - seus próprios quartos, casas, quintais ou no máximo o bairro. Este era, certamente, o modelo predominante de micronacionalismo em todo o mundo, até o advento das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTICs), em meados da década de 1990.

O micronacionalismo online, embora hoje tenha levado à fama a simulação de países, não é o modelo canônico de micronacionalismo, muito menos o único, embora muitos micronacionalistas se esqueçam disso atualmente. Pelo contrário: as tecnologias de comunicação em rede e digitalização de informações em muitos aspectos só copiaram e adaptaram as formas de organização micronacional que já existiam anteriormente. O fato de duas das principais micronações-modelo - Porto Claro e Talossa - terem começado de forma "analógica", com papel de celulose e encontros tête-à-tête, pode ser uma evidência disso.

Uma das primeiras micronações a lançar os padrões de simulação autóctone foi o Território Livre de Ely-Chaitlin, de Marc Eric Ely, um adolescente norte-americano que nos anos 1960 alcançou modesta fama com seu país simulado. Atribui-se a ele, por exemplo, o pioneirismo de autoproclamar-se monarca e convidar os amigos e também estranhos para participar da simulação, adquirindo cidadania. Também foi ele um dos primeiros a transpor sua própria história pessoal e familiar em forma de eventos fictícios na saga da nação. Com essa experiência, Ely conseguiu inspirar outro adolescente dos EUA, Robert Ben Madison, que em 1979 fundou a Talossa.

A importância da Talossa como modelo micronacional está em ter sido a primeira a fazer a ponte entre a simulação "analógica" e a adaptação das práticas de país-modelismo ao vivo para o contexto online ou em rede. Pelo que consta, foi ela a primeira micronação a ter um website oficial para comunicar entre seus cidadãos e também com outros países e futuros habitantes em potencial, em 1995. Foi também a primeira a transpor para a web, em formato digital e online, os jornaizinhos que antigamente eram produzidos a mão ou em máquinas de escrever. E ainda aproveitou recursos informáticos como e-mail e message boards (murais) para construir um espaço de convivência virtual entre a população.

Também teria sido a Talossa a primeira micronação a permitir a participação de habitantes a distância - a chamada cidadania online ou cidadania virtual ou ainda, no jargão talossano, a netizenship (de net + citizenship). Madison admitia novos súditos em seu reino por meio de uma complicada seleção, com várias etapas, semelhante ao processo de admissão das universidades norte-americanas. O candidato deveria escrever uma redação justificando seu interesse em entrar para o país, estudar a história e o idioma talossanos para ser sabatinado por e-mail sobre estes temas e, por fim, caso aprovado, precisava pagar uma pequena taxa para custear o envio de um exemplar de Är Páts ("Nossa Pátria"), o livro que ele publicara contando a Saga Talossana. Por um lado, este processo desestimulava a adesão e incentivava que potenciais cidadãos, em vez de entrar, fundassem sua própria micronação. Por outro lado, a Talossa sempre apresentou baixos índices de inatividade.

O pioneirismo de Porto Claro, por outro lado, foi conseguir aprender com a experiência talossana e adaptar-se completamente às lides eletrônicas. Embora tenha passado seus primeiros quatro anos com mapas (e até cidadãos) de papel, PC conseguiu transpor-se rapidamente para os recursos digitais. Foram os portoclarenses - até 1996 exclusivamente por iniciativa de Pedro Aguiar e depois com outros concidadãos - que inventaram a lista de discussão nacional, a realização de eventos sociais virtuais por sistemas de mensagem instantânea (IRC, ICQ e MSN), os jornais enviados por e-mail, e o formulário de imigração (o primeiro deles foi inaugurado ainda em setembro de 1996 no [website portoclarense]).

Finalmente, foi Porto Claro que inaugurou a política de relação com a sociedade macronacional, de se expor na mídia e atrair cada vez mais participantes não só para o país como para o próprio micronacionalismo como atividade coletiva. Entre 1997 e 1999, PC foi objeto de matérias em todos os principais jornais do Brasil e em algumas das maiores revistas e TVs, como O Globo, O Estado de São Paulo, a Folha de S.Paulo, o Jornal do Brasil, O Dia, Zero Hora, Diário de Pernambuco, Internet World, TV Cultura entre vários outros. Foi por meio dessa divulgação que outras pessoas tomaram conhecimento do micronacionalismo e começaram a criar a segunda geração de lusófonas, como Marajó, Econia, Ludônia e Astória. Caso os portoclarenses tivessem tido uma atitude mais semelhante à da Talossa - a de se ocultar e recusar exposição pública -, talvez o mundo micronacional lusófono nunca tivesse sido formado.

Atualmente, mesmo com a consolidação das técnicas de micronacionalismo online, até hoje vários outros mundos micronacionais "não-conectados" (ou offline) continuam existindo, como no caso do Conselho Internacional de Estados Independentes e das Artistamps, comunidades de simulações de países que se correspondem exclusivamente por cartas e encontros presenciais. E, até hoje, amiúde aparecem casos de jovens que brincavam de países simulados mas não sabiam que havia outros semelhantes aos seus, nem que tinham o rótulo de micronacionalistas.

História do Mundo Micronacional

Assim como se diz que não é possível contar uma "História do Micronacionalismo", também não parece correto afirmar que existe uma História do Mundo Micronacional no singular, mas sim várias histórias possíveis dos vários mundos micronacionais que existem. No entanto, alguns fatores ajudam a rastrear a origem de certa comunidade (ampla) de micronações a partir de algumas fontes de inspiração comum, desde que considerando a formação da própria idéia de "mundo micronacional" enquanto conjunto de micronações de alguma forma ligadas e interconectadas.

O primeiro destes fatores é a separação lingüística. Não se pode afirmar com certeza que um idioma precedeu outros no micronacionalismo, mas a anglofonia parece ter se disseminado e se desenvolvido muito rapidamente, talvez auxiliada pela condição socioeconômica dos países de língua inglesa (EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, principalmente), o que permitiu a esses países trocar experiências e inspirar-se mutuamente na criação de novos países, tão logo a internet foi popularizada no Primeiro Mundo (cerca de 1993). Entretanto, por registros bibliográficos e relatos de participantes, há notícias de intensa atividade micronacional pré-internet na França, no Canadá francófono e ainda nos países da Escandinávia (Dinamarca, Suécia e Noruega). Segundo o dinamarquês Peter Ravn, uma micronação fundada na Dinamarca em 1945 seria "a mais antiga do mundo".

Por outro lado, é mais fácil traçar a origem da Lusofonia, pois não há registro de outra micronação de língua portuguesa, nem na América Latina em geral, antes de Porto Claro, criada em 1992 e divulgada na internet a partir de 1996. Só em 1997 é que começaram a surgir outras micronações lusófonas, como Orange e The Island. Demorou-se mais dois anos para que outros países ibero-americanos entrassem no micronacionalismo, com os primeiros hispanófonos: Apuelo, Eldorado e La Almadraba.

Um segundo fator a se considerar é a política de secessão (ou separatismo) que faz do micronacionalismo, especialmente o lusófono, um conjunto muito instável, por vezes efêmero. Enquanto micronações anglófonas, francófonas e germanófonas são fundadas muito esparsamente e duram vários anos, às vezes décadas, grande parte das micronações latinas (incluindo lusófonas e hispanófonas) duram poucos meses e logo se pulverizam em inúmeras divisões, facções, secções e grupos de exilados que saem aos bandos e fundam uma nova micronação, em vez de ficar e ajudar a melhorar os problemas. Uma explicação plausível seria a incapacidade, ainda, de estes países simulados criarem identidades nacionais fortes para seus habitantes que os mantenham ativos a despeito de brigas internas (como a Talossa). Outra, no lado oposto, é a idéia de que o aspecto mais interessante do micronacionalismo é justamente o processo de inventar países, o que perde a graça rapidamente tão logo a micronação já esteja estabelecida e consolidada.

Assim, é possível desenhar uma genealogia de secessões e inspirações na Lusofonia (Campos Bastos, Malídia, Açores e Sofia, de Porto Claro; Avalon, da Econia; Mariana, de Marajó; Racktidan, Nova Athenas e Pasárgada, de Reunião) que levam, praticamente todas (com poucas exceções como Kelterspruf e Pacífica), a uma origem comum: Porto Claro. Esta genealogia é praticamente impraticável em outros grupos idiomáticos.

História da Lusofonia

Pequena cronologia lusófona (1996-2000)

1992, SETEMBRO, 25 - Criação de Porto Claro
1996, SETEMBRO, 5 - Porto Claro chega na internet
1997, MAIO, 12 - Primeira matéria publicada na grande imprensa brasileira (jornal O Globo) sobre micronacionalismo; mais de 100 pessoas preenchem formulários em PC
1997, MAIO - O País! é criado, reunindo duas pessoas: Claudio de Castro, que conhecera o micronacionalismo anglófono meses antes e Bernardo Bauer, que lera a matéria no jornal O Globo
1997, AGOSTO - Reunião se declara independente de O País
1997, NOVEMBRO, 16 - Orange é criada, após a Intentona Piranhesa
1997, DEZEMBRO - Vitor Braga, irmão do portoclarense Rafael Braga, cria The Island
1998, FEVEREIRO - A Revolução Restauradora expulsa a maioria dos participantes de PC e recupera os princípios originais do país, de 1992.
1998, ABRIL - Luiz Saboya cria Ludônia
1998, AGOSTO - Segundo boom: matéria no jornal Folha de São Paulo atrai cerca de 500 pessoas para o micronacionalismo, divididas entre novos países.
1998, AGO/DEZ - Surgem diversas novas lusófonas, inspiradas pela matéria da Folha, como Marajó e Econia.
1998, NOVEMBRO - A OLAM é criada num chat entre cidadãos de Orange, Marajó, The Island e Econia; Ludônia é recriada, agora com base em ex-reuniãos.
1999, JANEIRO - Ex-cidadãos de Ecônia criam Avalon; o ex-portoclarense Daniel Girardet cria Bervânia
1999, ABRIL - Pedro Aguiar sai de Reunião e volta a Porto Claro
1999, JUNHO - Marajó vira república; o ex-reunião Otto Von Draeger funda Racktidan
1999, JULHO - ex-portoclarenses criam Açores
1999, DEZEMBRO - Orange vira república
2000, MARÇO - Golpe dos Hipócritas (ou Golpe do Carnaval) em Reunião. Nascem Campos Bastos e Nova Athenas

Por micronação lusófona

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